terça-feira, 18 de junho de 2013

O aumento inconstitucional.

Para aqueles que insistem em falar que "é muita palhaçada só por causa de vinte centavos", eis a nossa resposta prática, longa e bastante contundente:

A passagem já era cara antes. Ela deveria retroceder, e não aumentar. Não faz sentido pagar quase três ou quatro reais para andar em ônibus sujos, quebrados, sem manutenção e abarrotados.

Não há linhas, motoristas, cobradores ou rotas suficientes. Se todo este dinheiro fosse empregado na quantidade e na qualidade do serviço, é claro que a população não reclamaria.

Apesar do que muitos pensam e falam, a maioria do povo não usa somente uma condução para ir ao trabalho ou compromisso e retornar ao seu lar. Quem consegue esta proeza é um indivíduo de muita sorte.

Estes preços absurdos impedem muita gente de chegar aonde quer ou precisa. Não podem ir ao médico, ou ao trabalho, à escola, à faculdade ou a uma entrevista de emprego simplesmente porque não há dinheiro para esta passagem. Ela nos tira o direito de ir e vir. O direito à saúde. À educação.

O superfaturamento destes tais estádios e espaços para as Copas (das Confederações e do Mundo) e a Olimpíada é criminoso. Alguns locais serão elefantes brancos após os eventos, e todo aquele dinheiro desperdiçado que poderia ser usado em melhorias nos hospitais, na educação, no transporte, na segurança e nas condições de moradia já é solenemente roubado e escondido, até que a população esqueça disso e prepare-se para o próximo carnaval.

Mas a população não está esquecendo. Ela insiste em lembrá-los, com estes protestos gigantescos, que o dinheiro é NOSSO. Não é da ala politiquesca ou da mídia tendenciosa. Temos o direito de saber para onde cada centavo que sai de nossos bolsos vai, e a obrigação de vigiar cada gasto feito neste país.

A forma como deputados premiam-se é vergonhosa. Uma mudança drástica faz-se necessária: salários de professores e médicos para os políticos, e salários de políticos para professores e médicos. Nossa polícia precisa entrar na dança dos manifestantes, pois ela recebe tão mal quanto eles, arrisca-se mais e ainda obedece aos que desejam prejudicar a pátria amada. Policiais, vocês têm o DIREITO e o DEVER de não aceitar qualquer ordem arbitrária que possa prejudicar o exercício da democracia e da cidadania nacional. 

Querem nos tirar o direito à tudo o que a Constituição permite e nos deixar com a missão de aguentar tudo em silêncio, enquanto o pão e circo corre solto e a novela está emocionante (e está? Sei lá. Nem quero saber. Não assisto novela há anos!).

Vejam quantos direitos nos foram usurpados. 

Não são somente vinte centavos. E não é somente pela passagem.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Burn, baby, burn!*

Não dá pra dizer que ninguém sabe o que aconteceu com a população para ela finalmente acordar. O mundo tem protestado e o Brasil, terra da eterna alegria, compreensão e aceitação, viu sua população gritar um gigante, monstruoso e retumbante "CHEGA!" ao que vem passando nos últimos...quinhentos e poucos anos.

Somos um povo miscigenado, onde todos - todos! - possuem, possuíram ou vão possuir algum parente, amigo ou conhecido que seja índio, negro, português, espanhol, italiano, alemão, japonês, chinês, dinamarquês, ateu, agnóstico, católico, neo-pentecostal, judeu, muçulmano, xintoísta, budista, loiro, moreno, ruivo, de cabelos curtos, longos, de olhos claros ou escuros, sendo alto, baixo ou mediano, homem, mulher, bissexual, homossexual ou hétero. Todos eles com diferentes gostos e muitas oportunidades para nos ensinar e aprender conosco. Temos a obrigação de respeitar todos eles - desde que nos respeitem também.

E é exatamente aí que mora o problema. Nós, pessoas honestas e pagadoras de impostos que esperam como retorno melhores condições de educação, saúde, segurança, transporte e moradia, simplesmente não somos respeitados. Por anos fomos iludidos com a velha temática do "pão e circo" enquanto as pessoas que estão no poder simplesmente mamavam em nossas generosas tetas.

O grande acaso agora é que a população cansou. Especialmente a jovem. Os mais velhos, infelizmente e em sua maioria, já estão acostumados com o Brasil da forma como ele anda, e preferem a calmaria de suas casas e a "emoção" dos jogos de futebol e das novelas à luta por um país melhor.

Hoje não precisamos protestar somente nas ruas (embora seja um dos métodos mais eficazes); temos telefones, câmeras, imagens digitais, sites que hospedam vídeos gratuitamente, redes sociais! A revolução precisa vir de todos os lados, e temos que lutar! A batalha contra o descaso dos governantes, que aprovam projetos e leis cada vez mais absurdos, não permitindo à polícia que cuide do cidadão ferido ou doente quando um incompetente serviço do SAMU demora horas intermináveis para chegar à ocorrência! Estes políticos-partidários que presenteiam-se com salários cada vez mais maiores e benefícios patéticos, um atrás do outro, enquanto nós ficamos à míngua! Eles, que afirmam veementemente que nossa segurança está excelente, que nossa saúde não sofre nenhum caos e que nossa educação só melhora, quando a realidade mostra pessoas incendiadas vivas por bandidos que não escapam impunes, hospitais e postos de saúde caindo aos pedaços e sem profissionais suficientes - isso quando ficam abertos à população! - e um país que amarga o penúltimo lugar em qualidade de ensino e educação no rank das Nações Unidas!

Mas tudo isso não importa para eles, minha gente...nada importa, desde que as Copas - das Confederações e do Mundo - corram muito bem, e desde que os turistas deixem seu rico dinheiro aqui, enquanto a massa alienada curte os jogos com seus traseiros conformados colados nas cadeiras, camas, sofás ou poltronas!

É uma pena que, para a desgraça do governo e dos engravatados endinheirados, o marasmo acabou. A alienação que nos foi empurrada goela abaixo por séculos a fio perdeu seu efeito. Eles podem usar os veículos de comunicação que quiserem, podem tentar abafar o tempo que desejarem que isso não vai acabar. Podem mandar a Polícia Militar e as Tropas de Choque nos trancafiar dentro de parques públicos enquanto jogam bombas de efeito moral (que só de "moral" não têm nada), balas de borracha e gás lacrimogêneo. Não nos dobraremos. 

E NÃO SÃO meros vinte centavos. São bilhões, trilhões de reais roubados todos os anos de nossos bolsos. Não vemos nenhum retorno com isso. Vocês acham mesmo que, se tudo fosse ótimo em nosso país, estes protestos existiriam? O Canadá tem uma das mais altas taxas tributárias do mundo. A diferença é que lá as pessoas enxergam, notam e sentem o investimento. Lá eles cobram melhorias, e seus apelos são atendidos.

Chegou a hora então, meu Brasil. Não sejamos apenas "povo" e passemos a ser "sociedade". Uma sociedade que clama por mais, que protesta, que exige ser tratada com o respeito que merece! Queime, sociedade! Queime de raiva, queime sua garganta, queime de vergonha os governantes que você mesma colocou no poder! Que a revolução não fique restrita às ruas ou às redes sociais; ela precisa chegar nas URNAS! O protesto precisa virar voto! A luta precisa ter resultado!

O gigante acordou. Está em chamas. E que o fogo da democracia dilacere quem se aproveita dela em benefício próprio! 

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*Queime, querido, queime!, em tradução livre.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Propaganda gratuita, quem não gosta?

Às vezes a vida prega umas peças que fazem a gente ficar muito feliz, sabe. 

No último post que escrevi, as palavras foram medianas, porém bastante sinceras sobre como quem deseja espalhar conhecimento e abrir os olhos da sociedade para seus próprios erros acaba tornando-se a pária dela mesma.

Eis que naquele blog que citei - sem colocar nomes, porque não é necessário - colocaram o link deste blog aqui exatamente com minha última crônica. Claro que isso foi uma tentativa de - apenas tentar, contudo sem conseguir - ridicularizar a minha pessoa, o meu trabalho, e o meu mais antigo blog (que é este aqui).

Vejam, eu nunca coloquei links ou endereços de sites em nenhum comentário naquele domínio, a não ser que me fosse pedido isso. Quando o fiz, não foi deste meu nenê, e nem do meu novo Blog. Isso posso garantir.

Acontece que...esperem, eu preciso realmente respirar fundo e conter minha felicidade...porque o mais simplório e honesto texto já escrito para cá causou tudo isso...

Acontece que a artimanha da pessoa que não tem sequer a pachorra de dar a cara ao tapa deu errado. O tiro saiu pela culatra! Ao invés de ser ridicularizada, de receber comentários negativos, de ter minhas integridades moral e física novamente ameaçadas, este blog aqui teve um SALTO DE VISUALIZAÇÕES! Sem este acontecimento, o "Estamos de Olho" recebia, em média, trinta visitas por semana. Com esta divulgação, só nos últimos dois dias recebemos mais de CENTO E VINTE leitores!

"Ah, mas eles não inscreveram-se no seu blog, eles só leram e foram embora, isso SE eles leram alguma coisa!"

E vocês, só por um acaso do destino, acham que esta que vos escreve LIGA para isso? Eu não escrevo para os outros enquanto não for paga para isso. Escrevo para fins PESSOAIS. Se o propósito do blog é causar reação? Sim, este é, empatado, o primeiro propósito dele. Escrever em cadernos já não era tão estimulante quando expôr as idéias abertamente, para polidas concordâncias e discordâncias. Era necessário um veículo maior, que abringisse a massa - sendo ela de manobra ou não. E foi assim que surgiu o "Estamos...". 

Se gostou, é uma reação; se odiou, continua sendo uma reação. E se alguém ignorar? Esta é a mais comum das reações! Objetivo concluído, então.

Então, pessoa do sexo masculino ou feminino (porque ainda está muito longe de tornar-se um homem ou uma mulher), com tudo isso, eu só posso expressar o que já foi incredulidade, raiva, tristeza e até um pouco de revolta com uma frase:

MUITO OBRIGADA!

Você alegrou meu dia de uma forma que não conseguiria imaginar! Nestas palavras, não residem a ironia nem o sarcasmo. Apenas a mais pura gratidão, pois você, caro ou cara, provou que um dito popular mostra-se incrivelmente apropriado para esta ocasião tão especial:

Falem bem ou falem mal, MAS FALEM DE MIM!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Síndrome do "Você não pode espalhar seu conhecimento".

Nesta sexta-feira, dia cinco de abril de 2013, entre o final da manhã e o começo da tarde, deparei-me com um interessantíssimo fenômeno que há muito não ocorria na vida desta que vos escreve.

Estava lendo algumas matérias e comentários de um blog que eu gosto muito, especializado num assunto de particular interesse. Numa das matérias, havia um pequeníssimo, mínimo erro de continuidade. Este erro, todavia, dava ao parágrafo um sentido completamente diferente ao pretendido pelo autor. Educadamente, corrigi o erro, pedindo perdão ao final do comentário, porque a Língua Portuguesa é um dos campos que realmente fascinam-me.

Qual não foi a surpresa ao ver que havia de três a quatro comentários em resposta ao que escrevi, e somente um deles era educado. Os outros foram uma chuva de provocações e pseudo-ofensas - ultimamente, é preciso muito mais do que um "vai te catar" para ofender minha pessoa. Não houve nervoso, não houve raiva. Mas houve um estranho sentimento de curiosidade e uma gargalhada espalhou-se pelo quarto quando li a seguinte resposta:

"Concordo com você (não é necessário publicar o nome). Essa garota quer saber mais que os outros! Não sei como você aguenta, (nome do dono do Blog)."

Foi exatamente esta primeira e pequena exclamação que deixou-me profundamente intrigada, e uma gigantesta interrogação passou pela mente: "Só porque eu vivo numa sociedade que deseja ser - e é - alienada, não posso estar acima disso?"

Aparentemente, esta tal sociedade em que minha pessoa vive grita a plenos pulmões que NÃO, eu NÃO POSSO ser mais, saber mais, desejar mais, querer mais, esforçar-me mais ou ter mais conhecimento que a média populacional. Minha obrigação como brasileira é sentar, assistir TV aberta de péssima qualidade, adorar carnaval e futebol, votar pela permanência ou saída de criaturas sem qualquer individualidade ou personalidade dos realities nacionais e aceitar qualquer engano que eu veja de boca bem fechadinha, inclusive e principalmente se vier de uma pessoa que admiro e que compartilha o mesmo amor por certo assunto que a idealizadora deste blog.

Para estes comentários, tenho respostas firmes e decididadas: SIM, eu quero saber mais que os outros. E pretendo cumprir esta grande meta. SIM, com menos de trinta anos, já sei mais que a maioria das pessoas que conheço - e o mais triste, estas pessoas simplesmente não querem expandir seus horizontes, não desejam também saber mais, possuir mais conhecimento. A vidinha futebol - novela - reality shows parece ser o suficiente para elas. Recuso-me a seguir tão pobre modo de pensar e agir.

NÃO. Nunca fiz e jamais farei parte de uma população que tem um prazer quase sexual em ver-se cada vez mais como simples massa de manobra, ao invés de lutar para tornar-se mecanismo de mudanças e melhorias. Se ela não me dá o que preciso, não tenho qualquer obrigação de ceder ao que ela quer. Continuarei consertando - ou tentando consertar - o que puder. Suas parcas tentativas de ofender-me não vão acabar com estes ideais.

 Ainda assim, agradeço às pessoas que tentaram usar de grosseria comigo (apesar de falharem miseravelmente). Afinal, até esterco vira adubo para o fértil terreno de uma mente orgulhosamente livre.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Adjetivo desperdiçado.

* Texto original publicado na minha conta pessoal de uma rede social.
 
A verdade é que a palavra "herói" é usada muito à toa hoje em dia.

Alpinistas sociais seminus e marombados no "BBB", na tal da "Fazenda" e em outros Realities deste tipo são chamados de "heróis". Por que? Por aparecerem peladinhos e cheios de tesão na TV? Balela.

Heróis são os bombeiros que, vendo todos fugirem do fogo, da fumaça e da morte, fazem o caminho inverso, entrando no caldeirão mortal e buscando sobreviventes. Ou resgatando corpos, para uma despedida apropriada que a família do falecido certamente não esperava, mas teria a sofrida missão de fazer.

Eles, no trabalho de acabar com incêndios e fazer rescaldo das construções, sentem o coração apertando-se quando dezenas de celulares tocam, e vêem, nas telas de alguns deles, mais de uma centena de chamadas, vindas de pais, mães, tios, madrinhas, irmãos e irmãs, preocupados com a segurança dos que, infelizmente, já não estão entre nós. Eles, em outras calamidades, nadam em rios monstruosos, lutam contra deslizamentos de terra e desabamento de enormes prédios, arriscando seus dias nesta Terra apenas pela grande dádiva de salvar quem eles sequer conhecem.

"Mas estão fazendo o trabalho deles!" E por isso merecem menos admiração? Menos palmas? Um palhaço que chuta uma bola e ganha R$ 3 milhões por mês merece realmente mais elogios e visibilidade do que quem trabalha dia e noite, às vezes morrendo só para que nós vivamos?

Herói é o rapaz que conseguiu sair inteiro da tragédia, porém não viu irmã nem amigos entre os vivos, e entrou novamente naquele inferno, pronto para ajudar seus entes queridos. Perdeu sua preciosa vida mas, antes disso, salvou quatorze outras pessoas. Também são heróis os voluntários que chegaram, vindos de perto e de longe, e ofereceram comida, roupa, água, casa, cama...ofereceram o tempo que eles poderiam até não dispor no momento. Deram abraços. Proferiram doces palavras de alento. Abriram as portas de suas residências e de seus corações para quem sofre a irreparável dor da perda.

Heroína é a âncora do Jornal que, contra toda a euforia do carnaval e das mulheres peladas e homens que só são machões na hora de pegar mulher à força, fala a verdade sobre esta "maravilhosa festa". E fala dos políticos de Brasília, dando tapas de luva de pelica. E repele o preconceito que ela mesma e milhões de outros nordestinos sofreram quando a Dilma foi eleita. E defende aqueles profissionais dali de cima, do começo deste desabafo, que foram chamados de "marginais" pelo governador que VOCÊ, morador do Estado do Rio, elegeu, simplesmente por exigirem dignidade em seus trabalhos. Também é heroína a médica que mandou às favas todo o discurso de "não fazemos declarações" que nosso governo sempre põe em prática, e desabafou sua revolta com o descaso que nosso Sistema de Saúde sofre.


"Herói" é uma palavra que deve ser usada com muito esmero. Pouquíssima gente merece esta alcunha. E nenhuma delas mostra os fundilhos arrombados, só pelo prazer da audiência.

domingo, 15 de julho de 2012

Palavras sobre uma heroína admirável.

*Texto originalmente escrito por mim, e publicado na Grupo do Facebook "Fãs da Ginástica do Brasil".



No último sábado, dia 14 de julho de 2012, recebi a triste notícia de que uma das pessoas que mais gosto fôra "ferida em ação". Não trata-se de um fantástico personagem de animação japonesa - que é o que eu mais gosto de assistir. Muito menos de algum ser fantástico de mangás, ou filmes, ou H.Q.'s, ou cartoons americanos. Não. Esta pessoa existe, e o super-poder dela foi dar-nos esperanças de algo até superior ao que o Brasil pode oferecer hoje, no cenário das Olimpíadas de Londres que já está aí, batendo à nossa porta.

Laís Souza, 23 anos de idade, ginasta paulista que integra nossa equipe Nacional e que nos daria a alegria de competir nos próximos Jogos Olímpicos. Ela sofreu uma fratura no quarto metacarpo da mão direita ao executar a saída das Barras Assimétricas (um dos aparelhos em que as ginastas competem) e está fora de Londres. A estudante de Fisioterapia Isabeau Almeida Apolinário* explica mais sobre esta área e a fratura:

"- O metacarpo faz parte da mão. Existe um em cada dedo, e eles ligam as falanges com os ossos do carpo, chamados popularmente de ossos do punho. As fraturas neste osso são raras, por causa da posição dele: muito próximo do punho. Poucos são os movimentos que realmente podem quebrá-lo."

Almeida também esclarece quais são as consequências para Laís:

"- Ela terá que passar algum tempo com o braço engessado. Por ser um osso que faz a articulação do punho com os dedos, não é possível colocar uma tala. O tempo de recuperação é variável, pode levar de um a dois meses e, quando ela se recuperar, ainda terá que ficar um tempo afastada do esporte, possivelmente fazendo fisioterapia para recuperar os movimentos e principalmente a força do dedo."

Outro fator pesa para a atleta. Além da própria lesão, a idade faz-se presente. De acordo com Isabeau, apesar de perder sua chance nestes Jogos, há esperanças de Laís voltar à força que vinha apresentando nos treinos:

"- Qualquer atleta de alto rendimento, ao sofrer uma lesão, tem seu rendimento reduzido por não poder realizar seus treinos. Apesar de não estar no auge de sua forma por causa da idade, se ela se focar nos treinos, pode conseguir sim recuperar sua potência."

Pela descrição de sua lesão, de qualquer maneira, ela sofreria uma fratura com o erro da saída. Ela caiu com a palma da mão para dentro do corpo. Se caísse para fora, a vítima seria seu pulso. Nas palavras de Apolinário, a segunda opção seria ainda pior:

“-Pode parecer terrível, mas ela teve sorte. Se a fratura fosse no pulso, ela não perderia somente o apoio de um dedo, como perdeu. Mas da mão inteira, mesmo que de forma provisória. E seria muito mais doloroso, além do tempo de recuperação ser ainda maior e de dificultar ainda mais um retorno pleno".

De qualquer forma, Laís não nos brindará com seu solo sempre fantástico, ou seu salto limpo, ou sua Trave com um muito bem-executado Rueda, o mortal carpado ao apoio sentado.

Antes disso, a atleta ficou anos longe da seleção brasileira por vários fatores: outras lesões, efeito-sanfona no peso, problemas com a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica)...mas ela ama o esporte. Ginástica é sua vida. Não o dinheiro, não a fama, não os holofotes: o que ela gosta mesmo de fazer é encantar, sem ter a menor noção do quão maravilhados ficamos com sua combinação duplo twist grupado + mortal grupado frontal, tão lindamente executado quanto o de Elena Produnova (RUS) no solo das finais por equipes em Sidney, no ano 2000. Ela também não sabe de toda a animação e renovação de esperança que sentimos quando assistimos aos seus vídeos de treino divulgados há poucos meses, onde a execução de seu duplo twist carpado (o agora popular "Dos Santos", valor F ou 0.6 no Código de Pontuação) é melhor que a de muitas ginastas norte-americanas, famosas pela potência de suas acrobacias.

Nada disso acontecerá, todavia. Esta pequena fratura, muito dolorosa, acabou com a terceira Olimpíada de Laís. Sem a força de suas passadas e sem Jade, afastada da seleção pela CBG - devido à rixas alimentadas pelas duas pontas do Cabo-de-Guerra - nossas chances de entrar na Final por Equipes ou de conseguir uma Final por Aparelhos passou de "ainda há esperanças" para "só um milagre dos deuses da Ginástica".

Apesar de todos os fatores que podem nos desanimar, tanto no papel de torcedores como no papel de fãs, devemos celebrar. São dezenas de países no mundo que possuem suas seleções femininas de Ginástica Artística. Somente doze classificam-se para os Jogos Olímpicos. Doze. E nós fazemos parte deste seleto grupo das doze Seleções Olímpicas. E não pensem nem por um segundo que Laís não tem “culpa no cartório”. Ela ficou longe sim, por anos! Mas Ginástica Artística é muito mais que um esporte. Ela não sobrevive somente com os atletas. Precisa de amor, incentivo, coragem e muita divulgação. Laís é tudo isso: ama o que faz, incentiva (mesmo que esteja longe), tem coragem de mostrar do que é capaz e divulga outros e outras atletas através de sua torcida. E esta última parte, garanto a vocês, não é de forma alguma sua obrigação.

Comemoremos, mas também protestemos. Hoje estamos entre os Doze Olímpicos, com quase-nulas chances de um Team Final. Em 2008, estivemos entre os Oito. Nos anos seguintes, figuramos entre as cinco melhores seleções do mundo. Chegamos a ficar à frente da toda-poderosa Rússia, da sempre tradicional Ucrânia e da inovadora Austrália. Em que esquina dobramos de forma tão errada nos últimos anos para decairmos tanto?

Não adianta culpar só a Daniele, ou só a Daiane, ou só a Jade, ou a Georgette e a CBG. Uma andorinha não faz verão, como dizia minha finada avó. Pode não ter sido nada e simplesmente o curso natural das coisas aconteceu – falta de renovação e de dificuldades -, como pode ter sido o conjunto de todos os fatores anteriores. As maiores vítimas são as outras atletas, estreantes em Olimpíadas e que gostariam de competir pelo vitorioso e glorioso Brasil de 2007 e 2008 (mas que não podem, pelo que foi descrito logo acima). E nós, fãs, amantes e torcedores. Talvez tão vítimas quanto as atletas. Ficamos tão acostumados com nossa seleção em Finais por Equipes que simplesmente não consideramos a hipótese de tudo decair. O choque quando isso aconteceu virou lágrimas, e depois raiva, e depois ironia, que transformou-se em conformismo. “O Brasil é o país do futebol mesmo, nunca dará chance para a Ginástica”.

Laís, esta menina que está com uma fratura na mão, que perdeu a chance de mais uma Olimpíada e que deve estar sofrendo muito mais por isso do que pela lesão, nos provou que isso pode ser revertido. Daiane também, Jade também. Antes delas, Luiza Parente. Ginástica não é só um esporte. É um estilo de vida. Nós, fãs, somos a prova viva disso, e não podemos esmorecer. Nossa função, com vozes, protestos, estudos e crônicas como esta, é manter a chama acesa. Se Laís desanimar com isso e anunciar sua aposentadoria, ainda assim a admirarei para sempre: ela saiu por cima, digna, membro da Seleção Olímpica e amando o esporte.

Obrigada, Laís, por nos mostrar como deve-se realmente dedicar-se a algo. Meu respeito por ti é para sempre.


* Agradecimentos à Isabeau Almeida Apolinário, estudante de Fisioterapia da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) de Belo Horizonte – MG.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O outro lado.*

* Publicação original minha, postada na conta de Facebook "Renata A. B. Senra" no dia 04 de junho de 2012, às 21:11 da noite.

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Na semana passada, a Record exibiu uma matéria sobre o caos na saúde pública do Rio de Janeiro. Qual não foi minha surpresa ao ver que uma emissora deu-se ao trabalho de ouvir o lado de uma médica, ao invés de ouvir somente as reclamações dos pacientes.

Não estou tirando a razão destas pessoas: esperar horas por um atendimento que não chega, seja via SAMU ou através dos hospitais e postos de saúde, e depois simplesmente sair sem qualquer resposta...ou pior, com um cadáver para ser enterrado...isso tira a frieza de qualquer um. No entanto, culpar os profissionais da saúde de nosso estado simplesmente não é a solução.

E é aí que entra esta heroína. Angela Tenório é Clínica Geral e trabalha na Emergência do Hospital Rocha Faria, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ela gritou a plenos pulmões sobre a vergonha que é nosso sistema de saúde, sobre como médicos, enfermeiros e auxiliares estão à própria sorte, como os pacientes morrem à míngua neste país que tem dinheiro de sobra, mas não tem vergonha no meio das fuças.

Para minha total perplexidade, ao invés de os pacientes gritarem em reprovação e desejarem nacos de pele e carne desta mulher...eles aplaudiram. Eles a apoiaram e defenderam suas palavras e ações, testemunhando a correria dela e dos outros escassos doutores, tentando atender a todos. Hoje, o "Fala Brasil", jornal matutino da Record, entrevistou Angela com mais calma, na casa da médica. Porque o que era para ser somente outra matéria insossa sobre superlotação em hospitais, acabou transformando-se num furo sobre a situação do outro lado da história: os que trabalham para salvar vidas.

E Tenório, em toda sua humildade, apenas desabafou ao final da entrevista concedida hoje:

"- O que eu fiz não foi heroísmo. Foi apenas o exercício da cidadania. Eu quero praticá-la. Isso não é um direito, mas uma obrigação. Todos devem exercê-la".

Angela Tenório, Clínica Geral da Emergência do Rocha Faria. Hipertensa, diabética, estafada, cansada de levar a culpa por algo que é inocente. Ela pode não querer ser uma heroína. Mas passou a ser o grande exemplo de todos os médicos desse país que deveria ter vergonha do que faz com eles e com a população que precisa deles, mas que, de "paciente", só tem a denominação clínica.